Conto livremente inspirado na canção homônima composta por Chico Buarque .
- Eu não sei onde estava com a cabeça quando aceitei me casar com você, seu crápula, verme, doente! Olha só onde você está agora! – ela dizia isso batendo no peito rígido dele, que esboçava reação alguma, permanecendo apenas com um sorriso de canto de lábios.
- O padre lá de São Pedro da Aldeia dizia isso, quando a insuportável da minha tia me obrigava a ir a missa: “escute sempre seus pais!” Padre tosco aquele, não honra as ceroulas que veste, como eu as honrei hoje. Mulherzinha de merda você, tivesse escutado seus pais, não teria se casado comigo, e não estaria aqui nesse pardieiro tentando me fazer sentir alguma dor, com essas mãozinhas de quem só carrega sacola de boutique do Leblon, porra. – os olhos dele avermelharam-se de ódio tão logo ele agarrou as mãos da esposa, retorcendo-as.
- Fala quem é teu homem.
- Não! Quer ficar mais tempo aqui, é? Solta, eu vou dar um escândalo.
- Que gritaria é essa aqui, hein, bacanas?
Otaviano é um homem, na falta de adjetivo melhor, imponente. Seus quase 1.90m de altura impedem-no de passar desapercebido seja no Maracanã, onde vai apenas por prazer, não para torcer por qualquer time, seja nos prostíbulos do centro da cidade que frequenta desde que completou a maioridade. Otaviano não tem profissão. Aliás, até tem, mas não assinam a carteira para herdeiros, ou valoram currículos de Ph.D’s em playboy’s business, e vadiagem. Seus pais, mortos num acidente de barco em Ilhabela, também não trabalharam. Eram herdeiros. A bem da verdade, é um mistério de onde a família Sousa Lima conseguiu manter o mesmo padrão de vida desde os seus áureos tempos, onde haviam dominado a produção cafeeira de Vassouras.
Viano, como sua mãe e seu irmão mais moço o chamavam, (a mãe enquanto viva, o irmão enquanto não havia sido internado num sanatório em Genebra) foi um adolescente perigoso e pervertido. O pai prometera-lhe uma mulher, assim que ele fizesse 18 anos. No tal dia, acompanharam Otaviano e seu pai diversos membros da (decadente) elite carioca. Figurões caricatos, a quem Otaviano julgava um bando de broxas.
Dalva era o nome da sua prometida. “Ah, quantas noites em claro esperei por esse momento!” Otaviano tinha fome, sede por Dalva. Entraram num quarto, ao fundo do lúgubre local. Cinco minutos depois, Dalva sairia do quarto rindo, bradando sobre as intimidades de Otaviano, ironizando – o . O bando de broxas agora voltara – se contra ele, riam, apontavam, cochichavam. Seu pai, seu ídolo, virou-lhe as costas. “Tudo culpa daquela putinha”. A partir do seu décimo oitavo aniversário então, Otaviano jurou tornar a vida das mulheres com quem se deitasse um verdadeiro inferno.
Entregou – se ao vício, das drogas, dos jogos de cartas, da bebedeira. Acordava de manhã e tomava Ballantines com Nescau. Ao ser interpelado pela mãe (o pai jamais voltou a olhar nos olhos do filho depois daquela vergonhosa noite com Dalva), Otaviano revoltava-se, xingava, ameaçava. Foi acusado (embora até hoje negue e não se lembre) pela empregada, de tentativa de estupro. O pai fez algumas ligações, cobrou alguns favores, e salvou a família Sousa Lima de viver um escândalo que tingiria de vermelho o tenaz manto branco que encobria sua história.Mandou – o viver com Tereza, sua irmã, que vivia na única mansão de São Pedro da Aldeia. Carola como só, Tereza era notadamente a mais indicada para converter Otaviano ao caminho da moral e dos bons costumes. Obrigava – o a ir a missa todos os dias até que ele largasse os vícios, que segundo ela, “ o levariam para o caminho do cabrunco.” Perto de completar vinte anos, Otaviano lia muito, e havia, enfim, largado a bebida e as drogas. Na mesma época começou a praticar musculação, comprar produtos, enfim, a virar um autentico marombeiro, versão tupiniquim de um Van Damme da vida. Descobrir – se – ia mais tarde, pelas evidências notórias, que Otaviano havia apenas trocado de obsessão.
Numa tarde ensolarada, sua mãe lhe telefonara de Ilhabela, comunicando que seu pai havia decidido que Otaviano voltaria a morar no apartamento da Pacheco Leão com eles. Não ficou tão exultante como sua mãe esperava, o que a intrigou. Jamais, entretanto, pode perguntar ao filho o motivo de tão fria reação. Pai e mãe Sousa Filho morreriam ainda naquela tarde, após uma explosão a bordo do barco no qual navegavam.
Otaviano chorou copiosamente, o que não ocorria desde sua infância. Despediu-se de Tereza, e voltou ao apartamento da Pacheco Leão, muito mais fisicamente forte, e disposto a prosseguir sua vingança contra as mulheres. Afinal, Tereza era um estorvo de velha, que não concordava com os produtos que ele injetava. E a única mulher que realmente prestava, jazia morta em algum local do litoral paulista.
Dali a dois meses, Otaviano já era conhecido na vizinhança pelas grandes festas que dava em seu apartamento, e por ter despachado seu irmão doente para Suíça. Numa dessas festas, a campainha tocou, e era Sarah que estava parada ali.
“Opa, desculpe, errei o apartamento, vim só visitar uma amiga”.
“Já que errou, por que não acerta, entra e curte um pouco a festa?”.
“Mas eu nem te conheço..”
“Olá, prazer, sou Otaviano Sousa Lima, tenho 22 anos, já morei numa cidade tosca, não trabalho, mas sou muito culto, e me interesso muito por olhos verdes que nem os teus, que fazem os homens ficarem boquiabertos…”
Sarah realmente era estonteante. Era alta para os padrões, usava pouca ou nenhuma maquiagem, tinha olhos verdes de deixar os homens boquiabertos, um corpo curvilineamente não – vulgar, e um tom de pele daqueles que Deus faz quando tira as melhores cores da aquarela e mistura tudo na paleta…
Daquele encontro casual, nasceu uma grande e avassaladora paixão. Otaviano enfim esqueceu sua vingança, e Sarah, que estudava para ser diplomata, via no seu companheiro a base para continuar seus estudos sem se preocupar financeiramente. Ainda que entre quatro paredes, a relação de ambos não fosse nem um pouco satisfatória.
Otaviano via – se ensandecidamente apaixonado. Queria pedi-la em casamento o quanto antes. Nessa intenção, levou-a para um passeio noturno no Mirante do Leblon. Estendeu – lhe um anel de diamantes, cravejado de jade, jóia que pertencera a sua finada e querida mãe. Sarah impôs que, para casar com Otaviano, este deveria abandonar o vício na academia. De imediato, concordou, embora, aturdido, pensasse no que iria ocupar sua cabeça agora.
A contragosto dos pais dela, o casal fez uma soberba festa de casamento, menos de seis meses após o encontro na porta do apartamento da Pacheco Leão. Casaram-se numa cerimônia seletíssima no Paysandu, onde todo o bando de broxas foi prestigiá-lo.
“Será que ele dá conta dessa morena espetacular?”
“Duvido, nem daquela putinha de centro da cidade ele conseguiu…”
“O que você trouxe de presente?”
“Uma cafeteira, mas deveria dar algum tipo de catuaba com viagra para jovens marombeiros…”
Sarah vivia um conto de fadas. Otaviano dava – lhe de tudo, contratou uma governanta, duas cozinheiras, arrumadeiras, tudo para manter sua mulher exclusivamente dedicada aos estudos, e a satisfação de suas vontades sexuais estapafúrdias. Embora houvesse a questão do sexo, torturante para Sarah, o casamento com Otaviano mostrou – se conveniente aos seus interesses. Sua rotina era estudar, estourar limites de cartões de crédito, e depois tentar fazer sexo com Otaviano, se é que isso era possível.
Um dia, porém, os vícios de Otaviano retornaram, adquirindo, contudo, uma nova faceta:
- Amor, vou a padaria! Teca esqueceu de comprar requeijão light…
- Você não vai a lugar nenhum, Sarah.
- Deixa de brincadeira, vou num pé e volto noutro, se não perco o fio da meada aqui…
- Tem alguém brincando aqui, porra?! Você não vai e acabou! – disse isso pondo – se a frente de Sarah, após bater a porta da rua com veemência.
- Mas o que foi…
Foi interrompida por uma bofetada que a fez quase cair de joelhos.
- Mulher minha não sai de casa sozinha, ainda mais com essa roupa! – abriu a porta, trancou – a por fora, e foi a padaria, Dali a dez minutos, retornou com o requeijão light, e com um buquê de margaridas.
Sarah passou a estranhar e a reparar o ciúme doentio que Otaviano agora nutria. Não a deixava entrar em lojas onde existissem atendentes homens, mesmo que gays, quase agrediu o cabeleleiro dela (“ Pra passar xampu não precisa fazer cara de prazer, punheteiro safado!”), destruiu shorts e biquínis, parou de comprar maquiagem… Dizia-lhe, quando ela reclamava, que bastava a beleza natural dos seus olhos verdes, e que só ele era digno de vê-la e apreciá-la.
Arbitrariamente, trancou a matrícula de Sarah no curso para diplomatas. Não queria que ela trabalhasse. Discutiram, e Otaviano ameaçou talhá-la com um estilete no rosto, transformando – a numa aberração que impediria qualquer homem de nutrir qualquer tipo de interesse por ela.
A felicidade dos primeiros dias de casamento, o conto de fadas, esvaiu-se. Sarah agora era amargurada, apática.
E numa dessas festas de confraternização de fim de ano da alta sociedade, veio a gora d’água,
- Fica sentada aqui que eu vou mijar.
- Não posso dançar? Você sabe como eu adoro samba… - fez um chamego no rosto dele, para tentar convencê-lo, embora soubesse que seria em vão,
- Se eu pegar você sambando aqui quando eu voltar, vou te surrar. – Sarah odiava a agressividade de Otaviano, potencializada pelo álcool, que ele jurava beber apenas nas confraternizações da high society (“Ninguém precisa saber que eu já fui um viciado, há que se manter as aparências…”).
Ah, esses quadris femininos. Não conseguem se controlar quando escutam uma música boa… Sarah não resistiu quando soaram os primeiros acordes de Disritmia… Com o Ney Matogrosso ainda por cima! Timidamente, Sarah saracoteou aqueles quadris, no ritmo da voz do Ney… Quem estava perto, não se furtou de olhar aquela beleza morena, que trajava um vestido justo, mas sem vulgaridade, da mesma cor de seus olhos… “Pretendo também me embrenhar no emaranhado desses teus cabelos…”
Nesse verso, viu a porta do banheiro se abrir, Otaviano logo estaria a mesa de novo. Com raiva, parou de sambar e sentou – se.
Otaviano, sem dizer palavra, retomou seu lugar e seu Ballantines puro… Mas ouviu o comentário de um senhor, que se se sentara à mesa de trás: “deixa a menina sambar em paz…”
- Sarah, ele falou comigo?
- Hã? Claro que não…
- O fortão, é com você mesmo… Deixa a menina, rapaz! Todos sabemos que ela é tua, mas não a prive de sambar, de ser feliz.. Isso é só um atestado de insegurança…
O que se seguiu depois da fala do senhor, foi um verdadeiro pandemônio. Primeiro, Otaviano quebrou o copo de Ballantines no rosto de Sarah. Depois, virou a mesa de trás , e, com a cadeira, desferiu uma série de golpes na cabeça do homem. Sarah, ensaguentada, chorava, gritava, e tentava agredir Otaviano, que parecia nada sentir. Atônitos, os convidados viam aquele show de horrores, sem poder fazer nada. Só um deles chamou a polícia, e quatro deles conseguiram arrastar homem e mulher para fora, o que impediu a morte do senhor, mas não que ele tivesse tido traumatismos cranianos e torácicos.
- Eu mandei você não sambar…
- Olha o que você fez no meu rosto!
- Fique feliz, minha vontade é matar você e aquele velho desgraçado. Lembra que você mandou eu largar o vício da academia, Sarah? Meu vício é você, meu amor,você é só minha, e de mais ninguém? Vamos para casa comer, e tratar desse dodói.
- Você é um psicopata, Otaviano!
As sirenes da polícia interromperam o diálogo. Meteram os dois na viatura, e levaram – os para a delegacia do Leblon. O delegado Maia tomou o depoimento dos dois em separado, e foi providenciar a cela de Otaviano, que deveria ser preso por tentativa de homícidio. Na madrugada, com a delegacia vazia, não foi difícil que o casal se reencontrasse, e a discussão recomeçasse…
- Eu não sei onde estava com a cabeça quando aceitei me casar com você, seu crápula, verme, doente! Olha só onde você está agora! – ela dizia isso batendo no peito rígido dele, que esboçava reação alguma, permanecendo apenas com um sorriso de canto de lábios.
- O padre lá de São Pedro da Aldeia dizia isso, quando a insuportável da minha tia me obrigava a ir a missa: “escute sempre seus pais!” Padre tosco aquele, não honra as ceroulas que veste, como eu as honrei hoje. Mulherzinha de merda você, tivesse escutado seus pais, não teria se casado comigo, e não estaria aqui nesse pardieiro tentando me fazer sentir alguma dor, com essas mãozinhas de quem só carrega sacola de boutique do Leblon, porra. – os olhos dele avermelharam-se de ódio tão logo ele agarrou as mãos da esposa, retorcendo-as.
- Fala quem é teu homem.
- Não! Quer ficar mais tempo aqui, é? Solta, eu vou dar um escândalo.
- Que gritaria é essa aqui, hein, bacanas?
Maia, o delegado, entrou na sala, silenciando o casal.Sentou-se em sua cadeira, cujo estofamento era marcado por guimbas de cigarro. Acendendo um, reclinou-se, e disse:
- Porra, são 3 horas da madrugada, minha mulher e meu filho estão sozinhos em casa, estou doido para terminar esse plantão e ir dormir… Vocês, bacanas, não compreendem o que é trabalhar, ter que cumprir horário. Vou falar a verdade pra vocês, é foda! Principalmente o meu trabalho, ter que lidar com uma porrada de vagabundos, marginais, ladrões, assassinos, toda a sorte de gente merda. Mas vocês não, são cheirosos, ricos, cultos, presumo? Talvez cultura não… Ricaços como vocês preferem ocupar a porra da mente com briga em festa de bacana? Vocês estão de sacanagem né?
- Sou culto…
- Cala a boca fortão, quem fala aqui sou eu, e não te perguntei porra nenhuma. Olha só, vocês vão pra casinha de contos de fadas de vocês agora. Não vou nem registrar ocorrência. Mas não é por que eu sou legal não, e nem aceito dinheiro de playboy. É porque do Leblon pro Bairro de Fátima é chão pra cacete, e eu já to muito cansado. Enfim, que vocês se fodam.
- Mas delegado, esse homem quase matou um senhor na festa, me agrediu.. – antes que Sarah pudesse terminar, o delegado interpelou
- Morena linda, sinceramente… Tchau. Qualquer coisa enquadra esse maluco na Lei Maria da Penha, mas deixa eu ir embora por favor.
Sarah e Otaviano, em viaturas separadas, voltaram para a Pacheco Leão. Percebendo que havia chegado primeiro, Sarah apertava insandecidamente o botão para chamar o elevador, com medo de que Otaviano chegasse ao mesmo tempo, e ocorresse uma dessas casualidades da vida que só o hall de elevadores permite.
Para sua surpresa, Otaviano esperava, em silêncio,num dos cantos do elevador. Ao abrir a porta, ele disse:
- Perdão, amor. Me beija…
- Só morta, seu verme. Vou fazer a minha mala agora e vou embora daqui!
- Só morta?! Você é quem manda.
O pandemônio se reiniciara. Otaviano lançou a cabeça de Sarah contra a grade do elevador, reabrindo a ferida que ele mais cedo fizera com o copo de Ballantines. Abriu a porta do apartamento, e empurrou Sarah para a cozinha, que agora jazia de joelhos, a pele morena tingida de vermelho.
Quando levou o primeiro tiro, Otaviano chegou a sorrir, antes de cair de joelhos perto da porta a qual trancava. Sorriu pela agilidade da mulher, mesmo ferida, conseguiu sacar um revolver de dentro do armário da cozinha. O que intrigou – o naqueles segundos que antecederam sua morte foi: de quem seria aquele revolver? Será que Sarah já premeditava assassiná-lo? Onde ela aprendera a manusear tão bem aquela arma? Como lembrou – se de usar um silenciador?
“ Já estou chegando, mamãe.”
No segundo tiro, dado dessa vez na nuca, Otaviano Sousa Lima já havia garantido sua entrada no Memorial da família. O terceiro e quarto tiros foram dados por uma Sarah diferente, que ria, sádica e diabolicamente, em êxtase.
Serviço findado, seu carma liquidado, Sarah finalmente poderia sambar em paz. Foi ao quarto do casal, e abriu o armário de Otaviano, na esperança de encontrar algum dinheiro que permitisse a fuga imediata; o 24 horas do posto já estava fechado, só conseguiria sacar dinheiro pela manhã. Revirando – o, encontrou um livro pesado. Abrindo, viu diversos recortes de jornais, que mostravam o casal Sousa Lima, fotos de Sarah em momentos íntimos, anotações de Otaviano, poemas que flutuavam do tosco ao meloso.
Numa das páginas, Sarah leu:
“Hoje Sarah foi a aula, e voltou um pouco diferente. Vou aumentar o limite do cartão dela. Tento disfarçar a minha tristeza, não posso revelar que estou falido. As aplicações que fiz na Suíça não renderam tanto quanto esperei, sinto que em breve experenciaremos o ocaso da família Sousa Lima. Mas não posso contar nada ao meu amor, seria um martírio ter que fazê-la deixar de usar tudo do bom e do melhor… Como amo minha Sarah, só quero fazê-la feliz.”
Noutra página:
“ Tive um descontrole atroz essa manhã. Esbofeteei Sarah para que ela não fosse a rua. Oh, céus, por que estou tão agressivo? Não quero feri-la, mas também não quero perdê-la. Já perdi a minha fortuna em quase setenta por cento. Não posso perder Sarah, mesmo que para isso tenha que agredi-la. Vivo uma árdua batalha com minha consciência, mas não sei o que fazer. Voltei a beber, e com o alcool voltaram todas as nuances negativas do meu adolescer. Digo para Sarah que é mera questão social,mas a verdade é que uso o Ballantines para esquecer que estou falindo, que Sarah se tornará comum, infeliz.”
Sarah fechou abruptamente o livro. Agora, seu rosto,ainda tingido de vermelho, era lavado por uma cachoeira de lágrimas de compadecimento. Otaviano era um homem bom, afinal, queria poupá-la. Era doente, mas poderia ter ido buscar tratamento se Sarah realmente tivesse um dia gostado dele. As agressões eram subterfúgios que escondiam a faceta insegura do homem, que do alto de seu 1.90 metro, era medroso, covarde. Sarah sentiu piedade, e pela primeira vez depois que o furor do primeiro encontro cessou, sentiu amor por Otaviano. Por trás do homem triste que Otaviano se tornara, havia a Sarah feliz, que estudava, gastava, e apanhava, ela compreendeu. Na manhã seguinte procuraria um bom psiquiatra para ele, salvaria – o. “Que amor conturbado…”, ela sorriu pensando.
Num choque de realidade, viu que Otaviano estava morto por suas mãos. Viu que também estava morta, fossem quais fossem os motivos, as agressões eram demasiadamente sofríveis para serem perdoadas ou esquecidas. Sarah, mulher decidida, deu lugar a Sarah, menina incerta e insegura. Chorou mais uma vez naquela noite. O choro, que fora de dor, que fora de compaixão, agora era misto de horror, arrependimento, certeza, confusão. O sofrimento de Sarah era avassalador, seu coração estava apertado, doía. Parecia que ela iria enfartar de tristeza.
Voltou a cozinha, espiou o corpanzil de Otaviano estirado numa poça de chão no gélido chão de azulejos franceses da cozinha. Tomou um copo d’água, e ligou o fogão seis bocas. “O gás escapando faz um barulho engraçado, não é, Otaviano?”
Sarah pensou na vida pela última vez, recostada na geladeira prateada do canto da cozinha. Atirou o copo pela janela, bocejou. Pensou em como teria sido sua carreira de diplomata, como teria sido se não tivesse conhecido o intenso Otaviano Sousa Lima, “se eu tivesse escutado meus pais…”, nas manchetes dos jornais do dia seguinte… “ Que droga, está muito evidente que eu matei o Otaviano e me suicidei. Família de rico tem que ter morte misteriosa, suspense, dinheiro envolvido…” Sorriu, quando lembrou que a fortuna da família já não existia.
Mesmo não sabendo se era para ficar exultante, Sarah o fez. Finalmente na eternidade poderia sambar em paz. Deixaram a menina.
Entreouve-se por aí uma infinidade de metáforas e comparações que tentam se não explicar, descomplicar o que de tão complexo há nessas quatro ternas letras, que juntas e nessa ordem formam a palavra vida. Descomplicações enunciadas por qualquer mortal que se atreva a mergulhar, dia por dia, nesse turbulento e revolto oceano de incertezas, desconexões, e sonhos. Enfim, essa introdução é mera minuciosidade, para não perder sequer um filamento de ideia que cruze minha cabeça, e para vagarosamente introduzir(com o perdão do pleonasmo) a minha metáfora. Metáfora esta extremamente atrelada ao estágio de vida no qual ora estou, e que visa, embora não aparente a primeira vista, fazer referência a um dos melhores momentos vividos por um ser humano. Lá vai, prepare – se:
A vida é um grande concurso público!
É…Fiquei um pouco decepcionado, acho que você se estiver lendo ainda, e não tiver se cansado na introdução, deve estar achando essa metáfora uma grande porcaria. Escrevo tão va-ga-ro-sa-men-te que dá até vontade de continuar esse texto, tenho uma ideia, sei sobre o que escrever… Esse é o problema! Ter um assunto é complicado, pois as emoções afloram, querem ir logo para o papel, ou para tela, podem se misturar, conflitar, desaparecer. Vou optar por seguir de primeira marcha, enfim.
Muitos tentam a vaga nos concursos públicos. A vida também oferece muitas coisas; Os concursos públicos são escolhidos de acordo com a formação profissional, ou afinidade mesmo, dos concursandos. A vida une pessoas através de afinidades também, homens e mulheres casam-se, e podem gerar mulheres.Existem muitas vagas e muitos concursos. Existem muitos casais e muitas mulheres.
Poucos são aprovados.
Poucas recebem a benção.
Poderia usar uma retórica besta agora, e, como interlocutor, perguntar: que benção?! Vá lá, fiz isso, mas usei uma metalinguagem afim de imprimir ao texto um certo tom blasé – chique – dourado. Ponto.
Se a benção fosse algo banal, todas as mulheres seriam com ela agraciadas. Entretanto, não são. A benção, que devagarinho vou lapidando nesse texto, é graça de poucas. É a chance de viver a maior alegria, de realizar – se na plenitude, de recordar a brincadeira com bonecas, na vida real. É a benção, é ser mãe.
Mãe é a síntese do paradoxo: único emprego provido por esse concurso público que é a vida, sem sombras de dúvidas vitálicio, ainda que seja repleto de nuances e instabilidades. A tarefa de ser mãe começa já na gestação, onde o corpo, lei da natureza, sofre transformação abrupta. A balança dispara, mas é só durante a gravidez que a mulher atinge a aura da tranquilidade do espírito e torna-se dona de uma serenidade que não há cirurgião que a faça. Uma criança traz a renovação e a esperança, junto com a pureza e a inocência, misturando tudo no gesto animalesco, da criatura segurando sua cria. Ali a mãe é decisiva: passa ao rebento toda a segurança que em si houver, passa sua serenidade.
Mas é bom se preparar: mãe sofre, chora, como Maria. Possui sexto, sétimo, oitavo sentido, torna-se sensível,fugaz e eterna, numa antítese sem nexo para quem não foi, ou não quis ser escolhida por Deus para ser mãe.
Ah, e é tão melhor quando é assim, de surpresa. O turbilhão emocional, as contas, as dívidas, as preocupações e neuroses, as invasões no complexo do alemão, a crise, fica tudo tão menor. O mundo começa a girar em torno do “comprar roupinhas pro neném.” Parece tão simples, mas as vezes realmente é. A emoção do primeiro “tá chutando!”, a obsessão por comidas esdrúxulas, o planejamento para o futuro do rebento,que vai ser jogador de futebol, vai ser bailarina, o cabelo da mãe e os olhos do pai, vai ser João, José, Bruna, Maria, cesária ou parto normal, o berço, o carrinho… Simples.
E quando param para analisar ele, que nunca para, o tempo, descobre-se que já está na maternidade. Mais um pouquinho de tempo, e já fala e anda. Outra dose de tempo, e já caiu de bicicleta, dali a pouco recebeu uma suspensão no colégio, chegou tarde em casa, passou no vestibular, arrumou um emprego, casou, teve um filho. É tudo muito simples, como ver uma lista de aprovados num concurso, se se é mãe, se se tem amor.
Da fecundação ao nascimento, nove tão suaves meses que a futura mãe não anda: plana, leve, ainda que pesada, pois sua alimentação passa a ser os sonhos, as projeções, até mesmo os enjoos.
Mãe é mar. Mares, não marés, porque não se sujeita a turbulências: a mais – valia é seu fihote.
Mãe é magia, cor, sol, alegria, luz. Para si e para todos que em torno dela estão.
Mãe pode ter, e ser bebê, pois reunirá, pra sempre em si, indissociável, a ternura e a inocência da criança, que permitirão a elas resumir a vida, não numa metáfora, mas sim no mais belo sentimento, o do amor.
Ora, vangloriem-se então! Vocês passaram no concurso mais importante do universo!
Foram escolhidas para trabalhar como mãe.
(Pra Gabi)
De tão desorientado, dobrou a esquina. Mudou o seu caminho mais uma vez naquele domingo de inquietudes, incertezas e desvirtuações. Caminhava preocupado,a opulência de seu corpo de quase dois metros reduzida a uma corcunda, mãos nos bolsos vazios de sonhos. Quis fumar um cigarro. Mas sentiu o chiado de seu pulmão, seguiu em frente. Vislumbrou luzes e conversas noutra esquina; uma lanchonete.
- Me vê uma coca-cola.
Pagou e seguiu seu rumo. O dia, de tão nublado, conseguiu fazê-lo tomar uma coca-cola e pensar em casamento. No seu íntimo, residiam harmonicamente a desesperança e a confusão. Passou por um homem na esquina mais adiante. Seguiu. Sequer olhou de relance para o lado. Deu-lhe a consiciência um daqueles tapas na cara que vez em quando ela dá, e ele retornou. Já próximo, viu que o homem chorava, comendo uma quentinha de frango frito com farofa. Frio.
- Toma aí cara, pode ficar com a coca – cola.
- Obrigado, camarada. Estava com sede… – o homem tentou disfarçar a voz embargada, esboçou um leve sorriso.
- De nada. – seco, mas um tanto intrigado, seguiu.
- Ei, camarada! Você mora aqui por perto?
De sobressalto, quase não respondeu. Na certa trataria-se de um desses malucos de rua, pensou. Deve estar querendo me dar um golpe, o tratante.Foi aí que tomou outro bofetão da consciência, e respondeu, lacônico:
- Moro.
- Poxa, desculpa incomodar, mas teria como você me arranjar uma coberta, ou uma blusa? Vou passar a noite na rua hoje, e estou com frio.
Que petulante, pensou. Dei – lhe minha coca – cola, e ainda fica fazendo esses pedidos. Estranho é que ele está com lágrimas nos olhos, e tem uma boa fala.
(Ai, consciência, três tapas!)
- Está certo, vou ver o que posso fazer… Não garanto, mas verei.
E enfim ele seguiu. No caminho, pensou em sonhos: nos seus, que ele tanto queria realizar, e nos daquele morador de rua. Pensou em chuveiro: chegaria cansado agora, e poderia tomar um bom banho . Pensou em carinho: poderia ligar pra qualquer um da sua agenda, e ouvir palavras reconfortantes, poderia até ser abraçado aquela noite.
E aquele homem?
Nessa dúvida, voltou aquela esquina. Levou – lhe água, biscoitos, algumas camisas e uma manta.
- Muito obrigado, cara.
- De nada…( ia dando as costas, mas aí a consciência..)Escuta, porque você tá dormindo hoje na rua?
- Ah… Eu briguei.
- Com quem? Tá sendo ameaçado?
- Não. Briguei com a minha família.
- Você mora com eles?
- Moro, em Nova Iguaçu.
- E como você veio parar aqui na Zona Sul?
- Não sei. Medo. Medo de enfrentar eles, a reação deles.
- Olha, camarada. Volta pra casa. Seja lá o que você tenha feito, eles são lar, são família. Te amam independendo do que você seja, ou faça. Volta pra tua casa, sai dessa esquina. Você não precisa disso, tem uma família preocupada com você, que te ama muito.
O homem não levantou a cabeça. Alguns segundo depois, suspirou, mas ainda assim foi perceptível a lágrima que timidamente escorreu pelo canto do olho esquerdo. Levantou a cabeça. Levantou-se, e começou a dobrar seu papelão. Lançou o saco de camisas e a manta sobre o ombro, bebericou a água, e disse:
- Obrigado. Precisava ouvir isso. – e caminhou em direção ao ponto de ônibus…Portava um sorriso no rosto, quando disse:
- Ah, obrigado pela coca – cola.
Daí, ele seguiu. Sem mãos nos bolsos,as incertezas dando lugar a felicidade de ter feito um bem, ainda que diminuto, para outro alguém.
Seguiu, dobrou a outra esquina, feliz.